Os
ilustradores Daniel Maia e Susana Resende, que em Junho editaram
desenhos do mais famoso bárbaro da literatura na antologia Os Contos mais Épicos de Conan, de Robert E. Howard, participam agora na
mostra itinerante que a editora Saída de Emergência cedeu à cadeia
de lojas Fnac, e que, em parceria entre as entidades, será exposta nos auditórios das megastores até
ao final do ano.
A
exposição estreou-se em Julho na Fnac Chiado (Lisboa), a par da apresentação
do livro.
Locais/Datas:
Fnac Chiado (Lisboa) - Até 31 de Julho
Fnac Sta. Catarina (Porto) - 1 Setembro a 25 Outubro
Fnac Coimbra - 1 Novembro a 4 Janeiro de 2022
Fnac Faro - 13 Janeiro 2022 a 31 Março de 2022
2021-06-29
Exposição de Conan com Susana Resende e Daniel Maia
2021-06-27
Patrícia Costa anuncia Crónicas de Enerelis vol.2
As
Crónicas continuam! A autora Patrícia Costa, autora da série
de banda desenhada Crónicas de Enerelis, com o Volume
01 – Prelúdio recentemente disponibilizado para venda
ao público, encontra-se a fazer os preparativos finais para o
lançamento de mais uma campanha de crowdfunding para pré-vender a
edição ao público, com o objectivo de financiar a impressão do
Volume 02. A campanha prevê-se vá arrancar durante o mês de Julho
e Agosto.
O 2º volume, com o título Sangue, dá sequência aos eventos do primeiro tomo e vai permitir aos leitores conhecer mais um pouco do passado do protagonista, Eyren Caeli, tal como irá explorar novos ambientes e desafios. A visão sobre este mundo mágico vai abrir-se mais um pouco e começar a mostrar a complexidade e riqueza dos seus territórios e dos povos.
Enquanto os preparativos da campanha editorial estão a decorrer, a exposição “Enerelis – A Criação de um Mundo Novo”, que esteve patente na Casa Mora – Museu Municipal do Montijo, vai ser apresentada no dia 3 de Julho, na Biblioteca Municipal Dr. Hermínio Duarte Paciência, em Alpiarça. A inauguração decorre a 3/07, às 18h, e – até informação contrária, dependente de indicações pela DGS – contará com a presença da autora.
Todas as informações são disponibilizadas nas páginas das redes sociais das Crónicas de Enerelis.
2021-06-24
Leitura Tágide 5 – Fahrenheit 451: O Romance Gráfico
Fahrenheit
451 - Novela gráfica de Tim Hamilton/Ray Bradbury. Ed. Relógio
D' Água
A sua produção literária abrangeu a ficção-científica, o fantástico, terror, adaptação de argumentos cinematográficos/televisivos e literatura policial. Bradbury colaborou ainda na série televisiva The Twilight Zone (séries de 1959-64, 1985-89, 2002-03 e 2019-20) e The Ray Bradbury Theater (1985-1992), para a qual adaptou vários dos seus contos.
A sua obra mais celebrada, Fahrenheit 451 (1953), escrita em plena Guerra Fria, releva os males da censura e do controlo de pensamento em estados totalitários. A história ficou mundialmente famosa após a adaptação para o cinema pelo cineasta francês François Truffaut, em 1966. Nos papéis principais encontramos Oskar Werner (Guy Montag) e Julie Christie (Clarisse/Linda Montag). A versão cinematográfica mais actual (2018) pertence a Ramin Bahrani e o argumento é co-escrito com Amir Naderi. Nela contracenam Michael B. Jordan (Guy Montag), Sofia Boutella (Clarisse) e Aaron Davis (Guy Montag em criança).
O livro entrou de forma perene na tradição dos grandes livros "distópicos" (1984, de George Orwell, recentemente adaptado a novela gráfica por Fido Nesti e editado pela Alfaguara, ou Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, entre outros). O Homem ilustrado também teve direito a versão cinematográfica (1969), com Rod Steiger no principal papel e realizado por Jack Smight. O conto “Um Som de Trovão” foi igualmente adaptado ao cinema por Peter Hymans, em 2005. Nele contracenam Catherine McCormack, Edward Burns e Ben Kingsley.
Os
seus contos foram amplamente adaptados ao universo da banda
desenhada. Vários foram os artistas que interpretaram as sua visões.
Entre eles, Jack Kamen – “A Mulher que Gritava” (colaborações
em Weird Science/Fantasy Books – anos 50), Joe
Orlando (colaborações em Jonah Hex e The Swamp Thing
– anos 60), Jack Davis – “A Roda-Gigante” (colaborações em
Mad Magazine – anos 70), George Evans – “O Pequeno
Assassino” (responsável pela adaptação a banda desenhada do
filme When Worlds Collide), Al Williamson – Time Safari
(colaborações em Weird Fantasy e Weird Science, entre
1952 e 1955).
A
maioria (16 livros) da obra de ficção científica de Bradbury
encontra-se editada em Portugal através da saudosa coleção
Argonauta (Livros do Brasil - 1953 >).
Num
capítulo pessoal a obra Fahrenheit 451 inspirou-me numa
versão de banda desenhada, onde em vez dos possuidores de livros
serem perseguidos, eram os possuidores de filmes que o eram.
Chamei-lhe “A Última Sessão” e era inicialmente previsto ser
publicado na revista Cineasta, editada pela FPCA – Federação
Portuguesa de Cinema e Audiovisuais. A revista foi entretanto
descontinuada o que não impossibilitou a adaptação a cinema
(realizada no formato Super 8) por João Paulo Ferreira, entretanto
falecido (nascido em 1943), realizador icónico do cinema underground
dos anos 70 e 80. O filme encontra-se em parte incerta, mas a banda
desenhada curta será incluída em breve no fanzine Outras Bandas
#6.
Hamilton (nascido em 1966) é um desenhador nova-iorquino que colaborou entre outros com a revista MAD, a DC Comics, Dark Horse Comics, a Nickelodeon Magazine e o jornal The New York Times. Entre os seus trabalhos na área de banda desenhada destacam-se The Trouble with Girls (escrito por Will Jacobs e Gerard Jones, e desenhado por Hamilton entre outros) e Welcome Back, Mr.Moto (personagem criada por John P. Marquand e interpretada no cinema por Peter Lorre (anos 1937-39)). Também adaptou a romance gráfico, a obra de Robert Louis Stevenson, A Ilha do Tesouro. Hamilton foi membro fundador do website de comics on-line ACT-I-VATE (2006-2019), onde criou as séries “Pet Sitter” e as “Adventures of the Floating Elephant”.
Em 2010, a adaptação da obra de Ray Bradbury (que contou com a permissão do autor) valeu a nomeação a Hamilton para os Prémios Eisner na categoria de Best Adaptation of Another Work. As premissas do livro, de 149 páginas, apontam para uma sociedade onde a função dos bombeiros deixou de ser apagar fogos, para serem os incineradores de qualquer vestígio dos mesmos e dos bens dos seus possuidores. Os livros são encarados como despoletadores de dúvidas, inquietação e de infelicidade.
Dividido em três partes (A Chaminé e a Salamandra; A Peneira e a Areia, e Fogo Vivo), a história acompanha Montag, membro de uma das corporações que começa a questionar-se sobre a sua função, após o encontro com Clarisse, uma vizinha desconhecida. A sua curiosidade pela razão porque as pessoas devotam a sua vida a proteger e a memorizar as obras literárias vai levá-lo à sua perdição. No prefácio de Ray Bradbury, este questiona o leitor sobre qual seria a obra que escolheria proteger e/ou memorizar em caso da ficção se tornar realidade... Mais tarde no parque da cidade, Montag cruza-se com Faber, um idoso que lhe fala do sentido das coisas, numa sociedade em que o ter é sobrevalorizado em relação ao saber.
É interessante que uma obra que se debruça sobre o poder da palavra escrita (mas também oral) veja as imagens darem-lhe força. Num traço enérgico, marcado por sombras contrastantes, as cores predominantes são o negro, o amarelo e o vermelho, afinal as cores quentes do fogo. Os tons nostálgicos do azul vão pontuando as restantes páginas.
A estrutura das páginas apresenta essencialmente uma ilustração de fundo, a abarcar a sua totalidade, sendo então introduzidas grelhas de vinhetas assentes em múltiplos de 6 ou 4. Mas tal não impede que a criatividade de Hamilton busque outras alternativas. Na página 47, a alusão às obras Moby Dick, argumento adaptado ao cinema por Bradbury e A Ilha do Tesouro, adaptada à BD por Hamilton. “Os livros converteram-se, no dizer do raio dos críticos pretensiosos, em água suja. Não é de admirar que tenham deixado de vender. O público sabia o que queria e deixou que a banda desenhada sobrevivesse.” (p.48); Mais à frente, na p.78, “Lembre-se de uma coisa: os bombeiros raramente são necessários. As pessoas deixaram de ler por sua iniciativa” (p.78). Palavras desanimadas dos autores.
A impressão é cuidada em papel de boa gramagem, lamentando-se infelizmente a falta de uma capa dura.
José Bandeira
“You don't have to burn books to destroy a culture. Just get people to stop reading them.”
― Ray Bradbury
“There is more than one way to burn a book. And the world is full of people running about with lit matches.... Every dimwit editor who sees himself as the source of all dreary blanc-mange plain porridge unleavened literature, licks his guillotine and eyes the neck of any author who dares to speak above a whisper or write above a nursery rhyme.”
― Ray Bradbury, Coda
“There must be something in books, something we can’t imagine, to make a woman stay in a burning house; there must be something there. You don’t stay for nothing.”
― Ray Bradbury, Fahrenheit 451
“Stuff your eyes with wonder, he said, live as if you'd drop dead in ten seconds. See the world. It's more fantastic than any dream made or paid for in factories.”
― Ray Bradbury, Fahrenheit 451
“If you don't want a man unhappy politically, don't give him two sides to a question to worry him; give him one. Better yet, give him none.”
― Ray Bradbury, Fahrenheit 451
2021-06-19
João Raz contribui BD para Aurora Boreal
Após o destaque a José Bandeira, outro autor com afinidade ao colectivo Tágide que participa na antologia Aurora Boreal em Reflexos Partilhados é João Raz, que assina duas BDs de prancha autoconclusiva, com argumento por José de Matos-Cruz. A obra, que conclui a saga editorial da enigmática e cósmica heróina Aurora Boreal (2018-2020), convida vários autores de BD nacionais a contribuir com BDs curtas para o projecto.
O mais recente destaque no blog Imaginário-Kafre, onde a rubrica Aurora Boreal em Quadradinhos tem publicado breves artigos sobre os artistas em causa, partilha agora uma página com desenho e meios-tons digitais pelo João Raz, onde este ilustra o texto “Aurora Boreal e a História Sem Memória”, bem dimensionado aos gostos criativos do autor por temáticas oníricas e espaciais. Mais informação AQUI.
2021-06-10
Nuno Dias premiado em concurso Demon Slayer
O jovem ilustrador Nuno Dias foi premiado com o 3º lugar no concurso “Demon Slayer/Kimetsu No Yaiba – O Filme: Comboio Infinito,” promovido pela Comics Jankenpon e Editora Devir.
O concurso, que também consagrou Inês Infante (1º lugar) e Gabriela Sá (2º lugar), mais Ana Monteiro (4º lugar) e Daniela Costa (5º lugar), desafiou à criação de uma ilustração fan-art alusiva à manga/anime, criada por Koyoharu Gotouge entre 2016-2020, tendo a criatividade da peça e a técnica demonstrada sido factores para as atribuições. O desenho do Nuno foi criado em formato digital, incluindo trama de ziptones.
2021-06-08
Leitura Tágide 4: Monsters
Produto da imaginação, talento, ofício e persistência do autor de banda-desenhada britânico Barry Windsor-Smith, Monsters, ao longo das suas 360 páginas, explora a forma como os efeitos perversos da violência se repercutem ao longo de gerações, afetando não só as vítimas diretas, mas também as que se encontram mais distantes, no tempo ou no espaço. Desenvolvida ao longo de trinta e cinco anos, esta é daquelas bandas-desenhadas que foi ganhando perfil de lenda muito antes do anúncio final da sua publicação num único volume. Não irei aqui entrar em muitos pormenores acerca da produção deste livro, mas posso referir que a sua origem se reporta a meados da década de 1980, quando o autor colaborava com a Marvel Comics. Na época, Windsor-Smith começou a trabalhar em Thanksgiving, uma história de 23 páginas que exploraria os traumas de infância de Bruce Banner como possível origem secreta do Incrível Hulk. Segundo o autor, originalmente era seu desejo conferir alguma profundidade emocional ao Hulk, uma personagem icónica por quem, o seu irmão mais novo, com Síndrome de Downe, nutria particular afeto. Entretanto, sem conhecimento do autor e antes que a banda-desenhada estivesse concluída, a sua ideia foi publicada pela editora sob autoria de outros, levando ao desentendimento de Barry Windsor-Smith com a Marvel. Nas décadas volvidas, o autor continuou a desenvolver esta banda-desenhada, acrescentando-lhe pranchas, explorando personagens e ramificações da história, transformando-a numa obra própria e independente, sem referências diretas às suas origens e com a ambição de um romance literário. O resultado é um livro adulto e perturbador que, apesar de deixar vislumbrar perfeitamente as suas raízes, está muito longe dos registos infanto-juvenis de ação e aventura do super-herói onde se originou.
Após a trama de suspense da primeira centena de pranchas, a narrativa prossegue focando-se na vida pessoal dos membros da família Bayley em diferentes momentos e regredindo no tempo, apresentando um mosaico de profundo humanismo e detalhe, num crescendo de dor e sofrimento, até culminar num brilhante götterdämmerung da Alemanha nazi, antes do epílogo agridoce e possível. Ao explorar esta temática complexa, Windsor-Smith acaba por reconhecer, enquanto autor, a incapacidade humana em encontrar uma resposta para o mistério da iniquidade, nunca chegando a resolver o enigma da origem do mal. No fundo, todos nesta narrativa, em menor ou maior grau, acabam por demonstrar alguma monstruosidade, por fora ou por dentro. No entanto, à boa maneira hippie, o autor conclui o livro apresentando o amor como único caminho para uma possível redenção.
Na minha opinião, o grande trunfo desta obra é o desenho, como naturalmente seria de se esperar numa BD. Feita integralmente a preto e branco, sem tons de cinza, tramas decalcadas ou digitais, o leitor vê-se face a face com um desenho sem filtro, como se estivesse a olhar para um manuscrito. Esta frontalidade produz um efeito de intimismo, que reforça o caráter humanista da história narrada. Barry Windsor-Smith deslumbra ao explorar ao máximo os limites do desenho, do rigor, do pormenor, das texturas e do claro-escuro, num registo a tinta, preto/branco, esbanjando virtuosismo. Estamos diante de um registo que quase se poderia epitetar de académico ou clássico, sem, no entanto, deixar alguma vez de ser banda-desenhada. A diagramação inteligente e adequada a cada sequência da história, a profusão de omonatopeias e o uso inteligente e adequado dos balões de fala enquanto dispositivos de direcionamento do sentido de leitura ao longo das pranchas, deixam sempre bem patente que, independentemente das suas influências vindas da pintura ou do desenho académico, Barry Windsor-Smith é, e continua a ser, um herdeiro da tradição dos comic books segundo Jack Kirby.
Pedro Cruz
2021-06-06
Tágide: Heróis Portugueses XXV
Na
recta final para concluir esta iniciativa com 100 heróis portugueses
de banda desenhada, hoje destacamos três novas personagens de
décadas diferentes:
A repórter Dorita (ilustrada por Mário André), de José Vilhena, foi
criada em 1974 para a revista satírica Gaiola Aberta,
produzida e editada pelo prolífico pintor e ilustrador. A curvilínea
Dorita, uma "mulher da vida" com curiosidades
sócio-politicas, surge em inúmeras sequências de humor de duas
páginas, intituladas "Dorita e as suas Sondagens", sendo
por vezes também figura de capa. A personagem acompanha o autor
noutros títulos, tais como O Fala-Barato, O Cavaco, O
Marginal, O Moralista, e ainda a 2ª série de Gaiola
Aberta.
O Pirilau (ilustrado por João Raz), de José Cottinelli Telmo – famoso arquitecto, realizador, actor, músico, cenógrafo, autor de BD e ilustrador –, surgiu em 1920 no Magazine ABC, com "As Aventuras Inacreditáveis – e com razão – do Pirilau que Vendia Balões", cujo sucesso propiciou a edição da revista infantil ABCzinho, gerida pelo próprio. A revista duraria até 1929, devido ao seu enorme sucesso, onde o autor assinava como "Tio Pirilau". Em 1999, a Baleiazul/Bedeteca de Lisboa publicam a colectânea monográfica O Pirilau que Vendia Balões é Outras Histórias.
Por último, eis a Alice (ilustrada por António Coelho), de Luís Louro, surgida em 1995 no álbum Alice na Cidade das Maravilhas. Reeditada quatro vezes até ao final da década, a obra esteve esgotada até 2020, aquando a Ala dos Livros lança uma edição comemorativa do 25º aniversário. Visualmente, Alice tem também partilhado a Lisboa d'O Corvo (outro herói do autor), através de cameos.
2021-06-02
José Bandeira assina BD de Aurora Boreal
O projecto de álbum de BD antológico, Aurora Boreal em Reflexos Partilhados, do autor José de Matos-Cruz, tem vindo a fazer destaque às várias obras curtas que irá publicar, alusivas àquela cósmica heroína. A obra concluirá a saga de Aurora Boreal (2018-2020) com uma adaptação desta das páginas de prosa ilustrada para os quadrinhos da banda desenhada, tal como havia sido feito com o herói Infante Portugal (2017), e desde Março que o blog do autor, Imaginário-Kafre, tem vindo a referir as BDs editadas previamente e os seus autores, entre os quais se contam dois nomes familiares.
Agora, a rubrica Aurora Boreal em Quadradinhos passa a fazer antevisão das novas histórias, inéditas, actualmente a ser produzidas, e que trazem para este universo ficcional lusitano alguns novos autores. O primeiro dos quais é o José Bandeira, que contribui com uma BD onírica e misteriosa, que cruza a titular Aurora Boreal com o enigmático poeta Álvaro Pessoa, cujas aptidões secretas e espectrais o José explora na sua história, que terá também a participação de José de Matos-Cruz no argumento.
Mais informações AQUI.
2021-05-31
Mário André prepara A Implosão!
Carinhosamente apelidado entre os seus colegas do colectivo Tágide de “mais velho novo autor da BD portuguesa,” Mário André, autor-editor do selo Kustom Rats, irá lançar-se como autor de novela gráfica este ano, após testar a sua criatividade narrativa em diversos fanzines. Reconhecido pelo seu percurso como enfermeiro da Selecção Nacional de Futebol e também no Sporting Club de Portugal, o Mário retomou a paixão pela BD na sua 3ª idade, demonstrando um ímpeto criativo invejável e uma sólida missão interventiva. Nesta primeira entrevista no blog Tágide, vamos procurar conhecer melhor o autor e o seu novo projecto.
Tágide:
Mário, o que te motivou a dedicar a tua aposentação a um modo
artístico como a Banda Desenhada, tão afastado da tua antiga
profissão?
Mário
André: O meu gosto pela BD surge em sequência de viver perto de
alguém que era uma coleccionadora compulsiva de BD. Por volta dos
anos 60/70, tinha acesso a todas as edições de banda desenhada
distribuídas pela Agência Portuguesa de Revistas. Pautavam-se, na
altura, títulos como o Mundo de Aventuras, Cavaleiro
Andante, Condor, Falcão e tantas outras. Era fácil
para mim levar para casa uma “braçada” de revistas, que devorava
rapidamente, voltando à carga logo de seguida. Juntando a isto o
gosto pelo desenho e algum “jeito,” que me vinha de meu pai, isto
foi deixando em mim o “bichinho.”
O
Curso de Enfermagem virou o meu foco e a opção pelo exercício da
profissão no contexto do Desporto ainda complicou mais as coisas.
Era um tempo de total dedicação física e mental, não havendo
espaço para outros interesses. Mas o gosto estava lá.
Veio
a aposentação, e o tempo agora sobrava, mas faltavam os saberes,
os suportes técnicos. É aqui que surgem as formações na Nexarte,
através de Pedro Moura, no Museu Bordalo Pinheiro, através de Penim
Loureiro, e na Câmara Municipal do Montijo, com o 1º curso
Iniciação à Arte Sequencial, coordenado pela Susana Resende. A
partir daí deu-se o início a mais uma aventura: ouvir críticas,
receber conselhos, enfim, procurar melhorar. Era o início da minha
terapêutica ocupacional na aposentação.
T:
O que mais te atrai e desagrada na banda desenhada?
MA:
Atrai-me a possibilidade de criar algo que tenha vida e não
somente letras. Algo que se pareça com cenas vivas e que leve as
pessoas a pensar e a compreender os conteúdos de uma forma dinâmica,
em que o uso da imagem surge como um factor facilitador e de atracção
para essa compreensão. Exaspera-me que a Nona Arte seja considerada
uma área menor no contexto das Artes, e especificamente da
Literatura. Desencanta-me que artistas de grande qualidade não
consigam viver da sua produção, estando somente esse lugar
reservado a uma minoria (ainda bem, apesar de tudo). Exaspera-me que
nos programas escolares pouca ou nenhuma importância se dê à BD e
ao seu papel no processo de aprendizagem, não só na sua área
específica mas na transversalidade que a mesma pode proporcionar.
As
coisas irão melhorar. Cada vez surgem mais autores e obras de melhor
qualidade. O futuro parece não meter medo mas a evolução é muito
lenta.
T:
Para além de teres frequentado formações e criado trabalhos curtos
em BD, também optaste pelo percurso de editor independente; porquê?
MA:
Em relação à edição de fanzines, foi o corolário lógico de
quem vai criando coisas que, contendo uma mensagem, seria uma pena
não ser transmitida (na minha perspectiva). Daí até à edição do
Doce Êmese Canibal, o primeiro dos fanzines que publiquei,
foi um passo. Mas foi também um grito de Liberdade!… Liberdade de
expressão e de pensamento na sua forma mais pura. Foi a
materialização daquilo porque tinha lutado sempre. Nesse sentido,
também acho importante que os programas escolares devam incluir a
criação de fanzines de múltiplas temáticas. Seria um
extraordinário estímulo à aprendizagem dos jovens, incluindo a da
própria cidadania.
T:
À ocupação de autor/editor independente, também te aventuras em
concursos. São um factor de motivação?
MA:
No começo foram os
fanzines, mas logo de seguida vieram os concursos e o primeiro foi o
de Lausanne. Ao participar em concursos, os resultados foram sempre
questões secundárias, mas funcionaram sempre como um desafio com
metas claras: o tema, os prazos, o número de pranchas, etc. Foi isso
que me ajudou a disciplinar a criação e a manter a sua
continuidade. Foi uma experiência muito importante, nas qual gosto
participar sempre que possível, tendo sido recompensado com duas menções honrosas até agora.
T: Depois desta introdução na comunidade de BD, desafiaste-te a criar uma novela gráfica. Porquê escolheres este tema, da banda desenhada de intervenção (política)?
MA: Entendo que toda a produção literária não deve ser uma coisa inócua. Não deve ser “conversa mole.” Tem de transmitir algo, tem de transmitir valores, tem de ser uma mais-valia. Todos os temas são possíveis, desde o amor à política, do mais onírico ao mais real, e até a própria arte com que o autor construiu o seu livro. No meu caso, optei pela intervenção política, fruto das minhas vivências culturais e pessoais. O Estado Novo marcou a minha família e a mim, atropelou as Liberdades de todos nós; tempos de miséria, exploração, ditadura, que nos deixou as suas marcas. Entendo que transmitir a mensagem para que vivamos num mundo mais livre e mais puro, com relações de maior respeito entre as pessoas, é um dever e uma obrigação. Foi este o caminho que escolhi.
Antes de 1974, pintava paredes e lançava panfletos. Hoje, pinto papel e lanço fanzines!... Não falo ainda em lançar livros, mas espero lá chegar.
T: Porque motivo te interessou em específico adaptar este ensaio, “A Implosão!”, de Nuno Júdice?
MA: O primeiro contacto com o livro foi a atracção pela capa, depois o autor – um poeta dos mais importantes no nosso país, reconhecido internacionalmente – e, finalmente, numa breve leitura ao seu conteúdo, constatei que a narrativa de Nuno Júdice reflectia a sua angústia pela situação que se vivia então no nosso país. E eu partilhava as mesmas interrogações.
A leitura do livro foi feita de uma só vez e nele encontrei vivências que me eram próximas. Era linguagem de quem viveu lutas anteriores e com quem me identificava. Transmiti isso mesmo ao autor. Até parecia que eu fazia parte daquele mundo...
A concordância de Nuno Júdice nesta adaptação, as sua opiniões, as correcções, os seus incentivos, a sua visão de quais os caminhos que o livro poderia percorrer, levaram-me a acreditar ser possível e importante terminar o projecto. Comecei a imaginar o desenrolar da acção, vinheta a vinheta, imaginei cenários e planos, e o respeito sagrado pelos diálogos muitas vezes demasiado compridos para uma normal página de BD mas impossíveis de alterar ou suprimir.
T: Como foi a experiência de produzir uma novela gráfica, após criares apenas BDs curtas?
MA: Parece algo difícil mas para mim foi fácil, talvez pela minha identificação com o tema. E assim foi, prancha a prancha, até ao desfecho final. Uma novela gráfica no meio de BDs curtas… Não foi uma opção deliberada foi antes a consequência de algo que me surgiu e que comigo se identificava profundamente, e que entendi que poderia dar o caminho de novela gráfica e com isso a possibilidade de chegar a outros leitores, quiçá mais novos, a quem a mensagem contida seria importante para uma maior consciência do que os rodeia em termos históricos e políticos.
E vou-me repetir: foi para mim muito importante sentir-me personagem daquela narrativa. Tudo o resto fluiu naturalmente.
T: Quais são os teus planos para a publicação da obra?
MA: Na minha perspectiva, seria uma pena que o projecto ficasse na gaveta, mas também reconheço que para a sua edição as exigências serão muitas e eu talvez não tenha atingido esses patamares. Mas aqui, o apoio da Susana Resende e do Daniel Maia têm sido inexcedível. Eles têm contribuído activamente para que o projecto venha a ter a sua publicação. Não sei como lhes agradecer.
Será possivelmente uma auto-edição. O meu desconhecimento do trabalho com a tecnologia digital é um obstáculo à qualidade do mesmo e aqui os colegas do colectivo Tágide serão o segredo que me ajudará a ultrapassar estes escolhos. Durante o 2º semestre e possivelmente aproveitando os festivais de BD que se venham a realizar, o livro irá ser apresentado. Aguardo ansiosamente por essa data!
T: Pretendes continuar a desenvolver obras no formato de novela gráfica ou vais regressar às bandas desenhadas curtas?
MA: Em relação ao futuro e após a aquisição das ferramentas digitais, estou a iniciar um novo ciclo, muito atrasado mas julgo que ainda a tempo. Uma nova novela gráfica está já terminada e será novamente uma adaptação de uma obra portuguesa de relevo, desta vez por Fernando Pessoa, cuja bibliografia considero ser pouco explorada no mercado de BD. Será a minha primeira tentativa do uso das ferramentas digitais para completar o projecto. Neste caso, vou contando com a preciosa ajuda do autor João Raz e da autora Patrícia Costa, para me ajudarem a ultrapassar as barreiras tecnológicas.
Futuramente. vale tudo. Fanzines, BDs curtas, esboços, novelas gráfica, exposições etc… basta um clic! Agora, o tempo dá para tudo, só que tem de ser com alguma rapidez pois ele não é eterno.
Sinceramente espero que tudo isto tenha um final feliz. Ficarei eternamente agradecido a todos os que me ajudam nesta aventura em que um velho de 64 anos se meteu. Obrigado a todos!
A Implosão!, de Mário André, baseado no livro de Nuno Júdice, será apresentado no 16º Festival Internacional de BD de Beja '2021.
2021-05-27
Exposição A BD Portuguesa é Super! no CPBD
Depois de integrar o 10º Brussels Comic Strip Festival, em 2019, e de transitar para a Bedeteca de Beja, no final do mesmo ano, a exposição colectiva “A BD Portuguesa é Super! - Super-heróis, ficção científica e mundos pós-apocalípticos...” estará agora patente na galeria do Clube Português de Banda Desenhada, na Amadora (antiga sede do CNBDI), retomando assim as actividades culturais nesta área, na “capítal da BD” portuguesa. Junto aos autores André Lima Araújo, Daniel Henriques, Eliseu Gouveia, Filipe Andrade, João Lemos, Jorge Coelho, Miguel Mendonça, Miguel Montenegro, Nuno Plati, Ricardo Tércio e Ricardo Venâncio, o autor montijense Daniel Maia apresenta duas pranchas das obras O Infante Portugal (2017) e Co.Br.A. (por editar em 2021), escritas, respectivamente, por José de Matos-Cruz e Marco Calhorda.
A exposição é inaugurada dia 29, Sábado, às 16h00, e dura até 14 de Agosto. As entradas são limitadas a 4 pessoas, de acordo com as normas da DGS (até indicação do contrário), e são possíveis entre as 16h-19h de sábados.
Estará igualmente patente a exposição retrospectiva “José Ruy e os Quadrinhos”, deste mestre da cidade Amadora.
Morada: Avenida do Brasil n52, Amadora.
2021-05-15
Tágide: Heróis Portugueses XXIV
Chegamos
a Maio com mais um trio de heróis nacionais, que levam a iniciativa
Heróis Portugueses a 90 personagens de BD celebrados!
Começamos pela BoneCrush, de Selma Pimentel (ilustrada por Filipa Lopes). Uma das raras personagens de influência manga da BD portuguesa, a BoneCrush foi desenvolvida pela autora para diversas ilustrações de portfólio e estreada em BD no fanzine All-Girlz Banzai!, em 2009. A personagem regressou em 2012 na antologia Zona Nippon 2 e foi planeada uma terceira BD, no BDjornal, em 2014, antes do seu cancelamento. Quanto ao Xatoman, de Álvaro Santos (ilustrado por Patrícia Costa), foi criado em 2001 para a rubrica "Heróis do ano 3000" do fanzine Tertúlia BDzine, nos #42 e 50. Xatoman – "o super-herói mais chato que a própria sombra" – saltou depois para o BDjornal #7, em 2005, para nova BD curta, também mantendo desde cedo presença online num website próprio, com vários conteúdos originais.
Por último recordamos Medusa 31, de Eliseu 'Zeu' Gouveia (ilustrada por Daniel Maia). O álbum de estreia do autor, em 1996, Medusa 31 – Nec Pluribus Impar, teve sequela em 1998 com Cidade Situada, porém inédita devido à separação dos sócios da editora, Pedranocharco. O vol.2 foi considerado para publicação noutra editora em 2002, mas inviabilizado pelo extravio de páginas do vol.1; a obra esteve acessível online temporariamente no website DeviantArt.
2021-05-11
Sérgio Santos escreve para ACBD
O
projecto ACBD, promovido pela Associação Tentáculo e
coordenado por Marco Fraga Silva, que desafia diversos autores a
produzir uma interpretação sua do argumento de página
auto-conclusiva, disponibilizado para todos os participantes, contou em
Março/Abril com o argumento de Sérgio Santos. O objectivo da iniciativa, para além de estimular a criatividade na comunidade de banda desenhada, é também demonstrar como as visões criativas divergem entre autores e como o poder transformativo das conceptualizações de cada qual podem conduzir a obras diferentes.
O
texto, "Ignóbil Patife," de cariz interventivo e surreal, teve oito interpretações
gráficas, pelos autores Antonella Antonioni, Beatriz Soares, Bruno
Maio, Diogo David, Filipe Duarte, Nietzche Pop e Mário André. É
deste último, colega co-fundador do Tágide, de quem partilhamos a
prancha de BD...
2021-05-09
Daniel Maia e Susana Resende ilustram Conan
Será
já na próxima semana que a editora Saída de Emergência lança a
antologia de Robert E. Howard, Os Contos mais Épicos de Conan. O
livro, que foi adiado da edição em 2020, vai finalmente estar
disponível em livrarias, reunindo muitos dos mais populares contos
curtos e novelas do popular bárbaro Cimério, contando com
ilustrações por 23 autores portugueses. Entre estes constam
Susana Resende, que ilustra “Bandidos na Casa,” e Daniel Maia,
que ilustra “Pregos Vermelhos”, o último conto escrito de Conan
e o único publicado postumamente.
2021-05-05
Dia Internacional do Livro 2021
No
passado dia 23, a Biblioteca Municipal de Alpiarça voltou a convidar
os autores Daniel Maia e Patrícia Costa para se juntarem ao autor
local Mário André, para juntos celebrar o Dia Internacional do
Livro. Através de um breve colóquio online, os artistas
reflectiram sobre as suas edições recentes em BD e sobre o actual
estado do sector editorial, no mundo pós-pandémico. Aqui ficam
fotos do encontro...
2021-05-02
Daniel Maia revela Co.Br.A.
O
autor Daniel Maia revelou em Dezembro o seu próximo álbum de banda
desenhada, Co.Br.A. – Operação Goa. A obra, escrita por Marco Calhorda, é baseada em factos verídicos da
História nacional e relata as manobras de espionagem realizadas por
uma agência secreta para assegurar a libertação dos prisioneiros
de guerra portugueses nas mãos do exército Indiano, após a tomada
de Goa, no começo da década de 60.
O
novo álbum é o 1º volume de uma nova colecção e foi originalmente
antevisto em exposição no 10º Brussels Comic Strip Festival e no
31º Amadora BD, estando previsto o lançamento no final do verão.
Entretanto, o 2º volume será publicado em 2022.
Aqui ficam algumas amostras que têm sido partilhadas online. Podem seguir mais informação sobre o projecto em CobraOp.




































